Quase 50 anos de reinado da nossa Miss Universo Martha Vasconcellos

13/07/2017

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Sábado, 10 de Junho de 2017 - 08:00

Quase 50 anos de reinado da nossa Miss Universo Martha Vasconcellos

por Iga Bastianelli


A baiana Martha Vasconcellos foi Miss Brasil e logo em seguida Miss Universo em 1968, exatamente 14 anos depois de Martha Rocha não ter conseguido o título... No tempo em que o Concurso de Miss era quase uma Copa do Mundo, foi uma enorme conquista para a Bahia e para o Brasil! Marta está às véspera de completar 69 anos, 18 de junho, com uma elegância e beleza de dar inveja a muitas mulheres mais jovens. Vale lembrar que Marta foi 5 vezes consecutivas capa das antigas revistas Cruzeiro e Manchete, uma homenagem nunca vista para nenhum outro brasileiro. Ela é nome de viaduto, em Salvador, e de Alameda de Shopping. No próximo ano Martha completará 50 anos da conquista do título, um evento que será, com certeza, comemorado e renderá novas homenagens. Martha Vasconcellos é a responsável por levantar "a moral" do povo baiano e nordestino, afinal a Miss Universo é nossa!



 


Gostaria que Martha confessasse aqui uma curiosidade da sua vida ou carreira, algo inédito, seria possível?


Creio que não existe nada inédito na minha vida. O que faltava publicar está na minha biografia. Muita gente não sabia, por exemplo, que eu tive problema de saúde e abandonei o título de Miss Universo em março de 1969. Peguei o primeiro voo e voltei para a Bahia. Foi um escândalo na Organização Miss Universo, dias depois retornei e negociei uma jornada de trabalho menos estafante. O contrato que a Fox me ofereceu e eu não fui fazer, o teste em Hollywood, meus encontros com famosos em eventos e coisas inusitadas do reinado também estão no livro. Ou seja, graças a Deus o povo brasileiro tem tido muito carinho comigo e nesses quase 50 anos de “reinado” não ficou nada inédito na minha vida. Aproveito para agradecer esse carinho, inclusive a você, Iga, por me fazer esse convite para estar aqui no BN Mulher. Muito obrigada!


 


Como tudo começou?


Desde cedo começaram os convites para eu ser miss. Com 12 anos as pessoas já falavam, pois eu era alta (1,75m, já ali) e pensavam que eu tinha mais idade. Aos 15 anos recebi oficialmente o primeiro convite das damas da sociedade e da coordenação do concurso, da TV Itapoan. Minha mãe gostava da ideia, mas meu pai ficava de mau humor. Se eu ganhasse uma condecoração na escola ele ficaria feliz, mas imaginar a filha desfilando numa passarela em traje de banho o tirava do sério. Aos 18 e 19 anos me convidaram novamente e ele disse não. Naquele tempo era assim... (risos). Quando ia fazer 20, veio o convite novamente, mas como eu já estava de casamento marcado, ele transferiu a responsabilidade para o noivo, que permitiu. Entrei no concurso por brincadeira, queria conhecer o Rio de Janeiro e jamais imaginei ser Miss Brasil, quanto mais Miss Universo. É muita coincidência uma Martha de Salvador exatamente 14 anos depois de Martha Rocha, não é? Isso criou um apelo muito grande, com a intervenção do então governador Luiz Viana e o ex Lomanto Junior, do então prefeito ACM, e meu pai acabou cedendo, porque ele tinha que autorizar – naquele tempo eu era menor de idade, a maioridade era a partir dos 21. Todos viam a chance de vingar a outra Martha e foi assim que o povo entendeu a minha vitória. Fiquei feliz por ter proporcionado tanta felicidade aos baianos e aos brasileiros.




Durante o processo teve medos? Quais?


Não, não tive medos. Uma apreensão, talvez, por ser a primeira vez que ficava longe da minha família, numa época em que tudo era difícil, não existia nem telefone com discagem direta. Imagine... Ficar viajando pelo mundo sem nem poder falar com meus entes queridos. No mais, tive uma educação sólida e o concurso era muito rigoroso no cuidado com a miss. Eu tinha quatro chaperones (acompanhantes) que se revezavam nas viagens.


 


Você voltou de imediato após vencer o concurso? Por saudades do noivo? Faria isso de novo? Largaria uma carreia por amor?


Você fala depois que passei a coroa, exato? Porque passei um ano viajando por todos os continentes e quase todos os estados norte-americanos. Sim, o casamento estava marcado e era um compromisso que assumi comigo mesma, com o noivo, a família, a sociedade baiana. Foi um acontecimento, capa de revistas e a imprensa toda interessada na cerimônia. Miss naquela época era uma estrela, comparada hoje às atrizes de cinema e televisão. O tempo faz com que amadureçamos, e creio que se eu tivesse a cabeça que tenho hoje faria tudo diferente. Mas isso é o que penso hoje. Não me arrependo de nada e, em 1969, com 21 anos de idade, era aquilo o certo para mim. Faria tudo de novo, pensando daquela maneira. Naquele tempo, ser modelo internacional ou atriz de Hollywood era um sonho muito distante, longínquo, que não fazia a cabeça das garotas nesse distante país tropical. O que queríamos era casar e ter filhos, formar um lar. 


 


O que mais gostou no concurso? O que detestou?


Gostei das viagens, a oportunidade de conhecer lugares que possivelmente eu não conheceria naqueles anos, como Honolulu, Bangkok, Manila, Hong Kong, Roma, Atenas, Londres, Paris e muitas outras cidades maravilhosas. Voltei a muitas delas anos depois por conta da boa impressão que tive. Quando uma garota de Salvador, em 1968, iria se imaginar morando em Miami e Nova York e sendo paparicada pela imprensa internacional e por artistas que só conhecíamos pelas revistas? Viajando de primeira classe e se hospedando nas suítes presidenciais dos principais hotéis do mundo? Sendo recebida por presidentes e primeiros-ministros? Capa das principais revistas? Era um sonho. A parte ruim, que realmente detestei, foi a carga de trabalho. Era excessiva. Tinha dias em que eu trabalhava 16, 17 horas. E tinha de estar impecável 24 horas por dia! A qualquer momento poderia surgir um fotógrafo e eu era a imagem da Organização Miss Universo, um concurso que aqui no Brasil tinha a importância de uma Copa do Mundo. Depois da negociação de março, como falei, passei a trabalhar somente oito horas por dia. Eles colocavam os eventos, jantares, almoços e coquetéis dentro desse espaço de tempo. Argumentavam que jantares e coquetéis não eram trabalho. E eu respondia que não seria se eu estivesse com os meus amigos. Mas, eu estava com os amigos deles. Logo, era trabalho sim. Finalmente aceitaram meus argumentos e pude ter um pouco de tranquilidade. Imagine você estar num jantar às 23h e no dia seguinte às 7h da manhã ter que enfrentar um voo transcontinental e chegar bem no outro lado do planeta para atender a imprensa, desfilar e distribuir autógrafos...


 


Imagino que em um concurso de beleza deste nível o que diferencia as candidatas são critérios muito frágeis, talvez detalhes. Conversei sobre isso com Leila Lopes, Miss Universo em 2011. E no seu caso Martha, o que considera que foi o diferencial para vencer? 


Sinceramente? Creio que foi o meu astral. Eu jamais imaginei ser Miss Universo e fui para Miami somente me divertir. Enquanto as outras estavam impecáveis, fazendo poses, preocupadas com os fotógrafos, eu estava brincando com as outras candidatas, aprontando horrores. Imagine que pedi para tirar foto com a Miss Iugoslávia, porque achava que ela seria a eleita – a primeira vez que um país comunista enviava candidata nos anos 1960. Creio que isso me envolveu com uma aura brilhante, de alegria, de felicidade, e isso me destacou. Somente.



 


As declarações de Ana Maria Cumba no livro dela, The World of Miss Universe, são verdadeiras? Estas declarações te incomodaram?


Não sei o que aconteceu com Ana Maria. Éramos muito amigas e meu pai só permitiu que eu vivesse em Miami na casa dela. Eu deveria morar no Hotel Fontainebleau, mas meu pai não permitiu. O concurso fez um acordo e pagava a ela a minha estadia (isso está bem contado na biografia). Ela se derretia sempre em elogios e tenho cartas e postais dela me elogiando (também estão no meu livro). O livro dela foi publicado em 1975 e ela falou mal de todas as misses que acompanhou. Todas. Inclusive de Ieda Vargas, a brasileira Miss Universo 1963, a primeira que ela acompanhou. Imagino que ela não tenha escrito o livro e alguém o fez, de uma maneira maldosa, para criar intriga e ser um best-seller falando mal das Misses Universo. Ieda, por exemplo, disse que ao iniciar a leitura, viu tantas mentiras em relação a ela que fechou o livro e nunca mais o leu – e Ana Maria tinha sido madrinha do casamento de Ieda! Minha família era bem posicionada socialmente e financeiramente, e eu jamais precisaria do concurso para conseguir recursos para me casar. Ana Maria foi irresponsável e inconsequente. Imagine que nunca li o livro... pelo que as minhas amigas misses me disseram na época, nunca tive curiosidade de lê-lo. Ah, e nenhuma filha de governador me acompanhou. Quem viajou a Miami comigo foi a saudosa Ruth Pacheco, esposa de um diretor dos Diários Associados na Bahia, que nem se aproximava de mim, porque a organização não permitia a nenhuma candidata ter acompanhante.


 


Você acredita que a beleza é um presente divino e deve ser retribuído?


Creio que o dom divino é a beleza da alma. E essa a gente tem de se esforçar para desenvolver. A beleza física é um detalhe, talvez uma prova que Deus coloca nas nossas mãos, no seu corpo (risos). Devemos retribuir com a beleza da alma, nos esforçando para ser uma pessoa melhor a cada dia. Esse que sempre foi o meu compromisso maior. Fiquei feliz com a alegria que dei à Bahia e ao Brasil, fiquei imensamente feliz com a recepção que tive aqui em Salvador quando voltei, quando 300 mil pessoas foram paras ruas me receber (1/3 da população da cidade em 1968 – um carnaval fora de época), mas a maior felicidade é quando posso tornar o dia de alguém mais feliz. Acho que esse é o verdadeiro trabalho de uma Miss Universo - ou uma ex (risos).


 


Martha, como você utilizou sua beleza como um instrumento do bem? Projetos sociais? Ainda hoje participa?


Na verdade, naquele tempo não havia muito essa consciência filantrópica. Eu dediquei a minha vida à minha família. Casei, tive dois filhos e tentei levar uma vida normal, longe de ser celebridade. Mas, sempre que solicitada, emprestei a minha imagem para diversos eventos. Fiz incontáveis desfiles para ajudar algumas entidades, participei de campanhas e nunca cobrei nada, nem para ser jurada em concursos de beleza por esse Brasil afora. Recentemente fui homenageada em Natal, aplaudida de pé pelas 1.600 pessoas que estavam no Teatro Riachuelo na eleição da Miss Rio Grande do Norte. Isso não é maravilhoso, ter esse carinho do povo quase 50 anos depois? Devo acrescentar que fui estudar Psicologia em Cambridge, EUA, no início dos anos 2000, fiz mestrado e trabalhei oito anos com mulheres vítimas de abusos em Boston, o que me rendeu três prêmios na área dos direitos humanos, o que muito me satisfaz. Voltei em 2011 porque o meu terceiro esposo morreu nos meus braços, vítima de um infarto fulminante. Não tive mais condições de permanecer naquele ambiente onde fui muito feliz e a partir dali faltaria alguém.


 


Como foi conviver toda vida com o título de uma das Mulheres mais bonitas do Universo?


Para mim nunca foi um problema nem uma solução. Jamais me achei uma das mulheres mais lindas do mundo. Costumo dizer que eles, os jurados, ficaram impressionados com a minha altura e os meus olhos verdes, mas nada em especial. Nunca pautei a minha vida no título de miss, e assim tem sido e será. As pessoas me cobram muito, mas sou bem simples. Imagine que saio do salão aqui perto da minha casa usando bobs, e muitas vezes me reconhecem e se espantam. Uma vez, no supermercado, uma mulher se aproximou, me perguntou, e depois disse que eu estava mentindo, que eu não era Martha, porque estava bem simples!!! Imagine...


 


Você é muito elegante e lindíssima e percebemos que é de forma muito natural! Como Martha encara a maturidade? Se sente feliz com a imagem que tem?


Não tenho vaidade excessiva. Não pinto os cabelos e uso pouca maquiagem. Recentemente fiz uma cirurgia bariátrica e estou me sentindo muito bem. Perdi mais de 30 kg. A gordura estava me fazendo mal e passou a ser uma questão de saúde. Hoje minha pressão está normal, não tenho mais problemas com o açúcar, meus joelhos voltaram ao normal e estou aproveitando muito bem essa nova fase da minha vida. Estou satisfeita sim com a minha imagem e espero ser uma velhinha bem bonitinha e doce nos meus 90 anos (risos)!


 


Que cuidados você tem hoje para manter a beleza?


Não tenho uma fórmula. Faço pilates e caminho três vezes por semana. Já fui corredora, chegando a correr 15km por dia – o que comprometeu meus joelhos... Como disse, uso pouca maquiagem. Somente quando um compromisso é mais formal eu me permito ir a um salão e ser arrumada por um profissional. No mais, eu mesmo faço a minha maquiagem, utilizando os conhecimentos que adquiri nos concursos e no curso da Socila que fiz como um dos presentes dos meus 15 anos (naquela época, todas as meninas ganhavam esse presente, que incluía treinamento em etiqueta, passarela, noções de maquiagem etc).


 


Que conselhos poderia dar as mulheres maduras?  


Que se perdoem. Que aproveitem a vida sem culpas, observando que o que elas fizeram na vida foi o que melhor lhes parecia no momento. Que curtam a família e os netos – a maior riqueza que alguém pode ter. E não se descuidar de coisas elementares, que fazem bem tanto a nós como a quem nos vê: a limpeza do corpo, uma roupa elegante (sem ostentação) e exercícios para reforçar a saúde.


 


Hoje vivemos a era das “selfies” e valorização da imagem! Você acha tudo isso exagerado? O que diria às adolescentes?


Acho exagerado sim, mas não condeno, pois faz parte do aprendizado do momento. No meu tempo de adolescente não tinha nada disso e a gente valorizava muito o contato pessoal. Espero que as redes sociais não afastem as pessoas do contato pessoal. O convívio dá muitas alegrias e é uma das formas mais eficientes de aprendizado. O conselho que eu dou é que tentem não deixar existir um abismo entre as selfies e a sua realidade, quando você se recolhe no seu quarto e está acompanhada apenas de você na sua intimidade. É aí que mora o perigo, pois muitas vezes essa superexposição esconde uma tragédia íntima, que é o incômodo de conviver consigo mesma. 


 


Como é sua rotina? Pratica exercícios? Que produtos de beleza usa? Tem algum segredo que possa compartilhar?


Hoje eu divido o meu tempo com os meus netos. Dois dias na semana sou motorista deles. Levo-os para lá e para cá. Adoro a companhia dos meus netos e me divirto bastante com eles. Gosto de estar no meu apartamento lendo, vendo programas seletos na televisão e admirando a beleza da Baía de Todos os Santos. Não vivo sem um bom hidratante e procuro não exagerar na utilização de cremes e maquiagem. E agora o segredo principal: me esforço para aprender mais e mais a cada dia e ser uma pessoa melhor. Aí está a razão para estarmos felizes e passarmos esse bem-estar para as pessoas.


 


Como foi a ideia do livro biográfico? Como avalia o resultado? 


Roberto Macêdo me entrevistou a primeira vez há quase 30 anos. A partir daí fomos nos aproximando e nos tornamos amigos. A ideia da biografia foi do então presidente da Assembleia Legislativa, Marcelo Nilo, e do diretor do projeto Gente da Bahia, Paulo Bina, que convidam jornalistas para escreverem sobre personalidades baianas. No início eu pensei que fosse uma brincadeira, mas, quando vi, era uma coisa séria e Roberto entrevistou 70 pessoas, além de pesquisar em várias fontes. O resultado foram 700 páginas e 400 fotografias. Fiquei muito feliz, pois não imaginava que a minha vida poderia interessar a alguém. Roberto me dizia sempre que qualquer vida é interessante e depende da forma como é contada! Imagine! Temos recebidos muitos elogios e o livro está esgotado. Estamos esperando uma segunda edição. A biografia foi um presente de Deus. Me emocionei bastante.  



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